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     A carta que o General Góes Monteiro – assinando, como sempre, P. Góes -dirigiu a Sobral Pinto em abril de 1945 (antes, portanto, do golpe que ele dirigiria contra Getúlio Vargas) é a confissão dramática da derrota do “partido fardado” diante de uma Nação que ele não compreendia, e que Góes nunca poderia compreender, em boa parte porque, apesar de dizer ter-se afastado de sua influência, havia trazido da Escola Militar a marca do castilhismo. A política castilhista, escrevia ele, explicando porque já não a tinha como orientadora de suas ações, “era bem um modelo de tirania esclarecida, no tipo de Francia, glorificado pela pena de Carlyle, como digno de figurar no calendário dos grandes homens, invocado no igrejário de Augusto Comte”. A decepção com o castilhismo, pelo seu “caráter miniatural do estatismo positivista, propenso a construir republiquetas de governança patriarcal” não indicava, em 1945, que aceitasse o liberalismo. Pelo contrário, dizia mirar-se no mundo exterior e afirmava que todos os países haviam caminhado “para a legislação de contingenciamento financeiro, econômico, demográfico e até ideológico”. O “intelectual do partido fardado” – da mesma maneira, aliás, todos aqueles que como ele viam no Exército uma organização “que funde, no seu cadinho, homens de várias procedências sociais e locais”, e que afirmavam ser o Exército “uma armadura nacional com 4.300 km de largura e outro tanto de comprimento” – todos eles renegavam e renegaram o liberalismo.  

 

    A confissão da derrota é pessoal, mas é também, podemos dizer, o reconhecimento de que o “Novo Príncipe” não tinha bases sobre as quais assentar seu domínio. “Diz V.Exa. – escreve ele a Sobral Pinto – que nos cabia o dever de melhorar as instituições vigentes em 1930 e não subvertê-las ou substituí-las. O pensamento revolucionário, tentando dar ao movimento de 1930 uma densidade maior, transformando-o numa revolução, era precisamente contrário a essa tese que agora volta à baila. E volta porque as desgraças passadas se recordam com saudade; porque o ambiente internacional mudou, e porque a Revolução falhou na conquista da maioria dos objetivos visados.” E vinha a pergunta dramática e pungente: “Mas onde haveríamos de achar os homens para melhorar as instituições representativas? Não estavam mortos os melhores apóstolos do regime?”  

 

    Vem em seguida a confissão da derrota: “Eu reclamava poder, ordem, disciplina e ardor para, em dez anos pelo menos, como recorda V.Exa., preparar a nova elite e poder modificar as condições de ignorância e miséria das massas, responsáveis pelo aviltamento da prática constitucional.” E admitia: “É certo, porém, que ordenar o Brasil, dar saúde a seus milhões de doentes, vítimas de impaludismo, sifilis, amarelão, nutrição minguada e errônea, deshigiene, ignorância e apatia não é tarefa de somenos”. Para realizá-la, havia reclamado disciplina. E invocava o que dizia ser a lição de Renan, de Nietsche, de Sorel, de Peguy, de Engels e Marx, de Darwin, Hegel, Feuerbach, Haeckel, Carlyle, Stuart Mill, William James, a ditadura soviética: “Todas (essas lições) preconizam o fortalecimento da defesa nacional e recomendam a disciplina, que sempre preguei e que V.Exa. tanto parece temer, como se os brasileiros fossem tão hostis à desordem que pudessem suportá-la.”  

 

    Não fazia da “defesa nacional”, em 1945, a mesma idéia totalizante de 31. Fixava-se, então, no conceito militar, talvez – dizia, citando o “ensinamento básico marxista” – por ser militar: “Nunca me (abandonou) o pensamento de fortificar a defesa nacional e contribuir para o progresso militar do país, ajustando-o à evolução do mundo contemporâneo e, especificamente, do seu meio contornante.”

 

 

 

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