íntegra do artigo editado e publicado nesta data por “O Estado de S.Paulo” com cortes

 in ESPECIAL – A História do Jornal / A História no Jornal

 “Detalhes da rotina do jornal durante a censura militar vividos por um personagem central: o secretário de redação”

 

 

      Em fins de 1945, São Paulo não é uma grande cidade; terminará a década seguinte com um milhão de habitantes, um milhão e meio. Prestes Maia, nomeado prefeito pelo ditador a preparará para ser megalópole: cuidará das marginais, de abrir a Ipiranga e a São Luís e de alargar a Consolação em seu início. Apartamentos, luxo a que poucos se permitiam, ainda não faziam parte da “maneira de ser” dos happyfews que só em meados dos anos 1950 começavam a ter renda bastante para ocupar um segundo endereço nas ruas centrais, um “JK” (janela e kitchenette).

 

      As sedes dos jornais correspondiam à vocação da cidade: abrigavam redações e oficinas gráficas, mas os prédios, grandes por imposição das rotativas, pouco destoavam das construções vizinhas. Os jornais não viviam da Cidade. Não havia o hábito de comprá-los nas bancas. Quem tivesse interesse em estar bem informado, assinava um deles e o recebia em casa todas as manhãs junto com o pãozinho e o leite. Apenas quando o comércio e a indústria passaram a ser de fato importantes é que horários (dead lines) se impuseram às redações e oficinas. Antes desse progresso (!?) o relógio que comandava o fechamento das redações e tipografias era o trem, que deixava as estações do Braz, da Luz e da Sorocabana a hora certa, ligando a Capital ao Interior de onde vinha a maior parte das assinaturas e da receita segura.

 

      Três jornais disputavam a preferência da camada ilustrada da população paulista com vocação política: “O Estado de S.Paulo”, o “Estadão”, assim chamado pelo volume de anúncios e o tamanho da página, dividida graficamente em dez colunas, sempre; a “Folha de S.Paulo” (matutino e vespertino) e “Diário de S. Paulo”, matutino, e seu vespertino, o “Diário da Noite”. Destoando destes, havia o “Diário Popular”, forte não pelo noticiário, mas pelos anúncios de emprego (oferece-se/procura-se). Creio que pelos anos 1960 houve alguém ou um grupo econômico que tentou romper a barreira do Estado, da Folha e do Diário. O jornal, descobriu-se então, era uma Empresa ─ malgrado o romantismo de muitos dos que o faziam.

 

      Nenhum dos três sobressaía como empreendimento imobiliário: para a chegar a um deles era preciso saber que o Diário, por exemplo, ficava em um prédio assim e assado na Sete de Abril; o mesmo acontecia com a Folha, na Barão de Limeira quase Duque de Caxias. O prédio do Estado era o mais distante do Centro; até a queda da ditadura Vargas (o Estado Novo) em outubro de 1945, ele tinha dois endereços, um para redação e composição (linotipos), outro para a impressão (rotativas). Modestos, ambos. Não eram ponto fixo de referência. A influência política do Estado era pequena: afinal, o então interventor federal (governador nomeado por Vargas) havia ocupado militarmente o prédio, depois forjara a transferência da sociedade proprietária do jornal para amigos do Poder. Era um jornal do Governador, como tal conhecido, como tal respeitado…

 

      Em outubro de 1945, quando Vargas foi deposto, tudo mudou. Livre para decidir, o Supremo Tribunal Federal restabeleceu o direito dos antigos e legítimos proprietários da sociedade anônima que editava o jornal “O Estado de S. Paulo”. Da noite para o dia, por assim dizer, o “jornal do governador” passou a ser o jornal da UDN, na oposição ao governo Vargas e aos que o seguiram até 1964. Era “um partido”. Compreendamos: não o jornal de um partido (a UDN, embora sustentasse seus candidatos e seu programa), mas “um partido” ele próprio, empenhado na ilustração e na educação de seus leitores. O que o movia era um objetivo nacional, um projeto que implicava obter o controle do aparelho de Estado, especialmente a Educação. E ele tinha um inimigo: Getúlio Vargas, o “fronteiriço”. Como era Vargas o inimigo, o jornal foi apontado como sendo da UDN. E perdeu-se de vista, no estudo de sua “ideologia”, que o projeto de construir a nação já havia sido aventado no Império, especialmente na crise da maioridade. É aos pensadores do Império que Dr. Júlio recorrerá como inspiração de análise e proposição de ação nas crises da República, especialmente, na de 1961.         

 

      O “prédio novo” ─ o da Major Quedinho, 28 ─ para onde se mudaram administração, redação e todas as oficinas, erguia-se ─ assim vejo as coisas, hoje ─ como afirmação de vontade: saibam que aqui não é o “jornal do Governador”, mas sim o de quem pretende com ele construir uma nação! Por sua majestade e localização dava a todos uma idéia de segurança que era reforçada pelo fato de que a carteirinha do “Estadão” era como um salvo-conduto quando o policial pedia credenciais… até a apreensão da edição de 13 de dezembro de 1968.

 

      Em 1955, a redação fora visitada por um censor, oficial do Exército, no estado de sítio decretado pelo Congresso na seqüência dos golpes de Estado desferidos pelo General Lott, Ministro da Guerra, a pretexto de garantir a posse do Presidente eleito, Juscelino. A passagem do censor foi tão rápida e sem efeito que será melhor sempre tê-la como “visita”. Em 1968, nenhum censor visitou o jornal ─ a edição de 13 de dezembro foi simplesmente apreendida.

 

      A apreensão levou à censura, que provocou uma reação no “Estadão” e outra no “Jornal da Tarde”. Como essa reação foi percebida pelos leitores, permitiria algumas teses acadêmicas sobre como a opinião pública reage a regimes autoritários. O “Estadão” reagiu à censura publicando poesias e depois Os Lusíadas no lugar da matéria censurada e houve quem louvasse o empenho do jornal em difundir Cultura. O JT decidiu publicar receitas culinárias. Muitos leitores protestavam quando a receita não cabia inteira no espaço da matéria censurada. Se o Estado difundia a Cultura, o JT sacrificava a Gastronomia… Quem dava as ordens de censura não sabia disso e continuava cortando o que poderia dar editorial ─ para alegria de Camões. Pelo menos duas edições de Os Lusíadas foram publicadas em pequenos trechos, respeitada a seqüência original ─ afinal, quem selecionava os versos sabia ler e escrever e orgulhava-se de difundir Cultura e enganar o censor, comunicando aos leitores as razões de Camões aos pedaços… 

 

      A crise de 1968 provocada por discurso proferido por deputado MDB e tido como ofensivo ao Exército, foi longa e grave. O bastante para que não se estranhasse que a Polícia Federal quisesse saber como seria o jornal do dia seguinte. O General R/1 Silvio Correa de Andrade, chefe da PF em São Paulo, telefonou por volta de meia-noite de 12/12 para conhecer a manchete de 1ª página. Ela dizia da tensão política e da prontidão do Exército. Informado, despediu-se sem mais. O jornal fechou normalmente. Às primeiras horas da manhã do dia 13 (o AI-5 só seria baixado à noite) soubemos da apreensão determinada pessoalmente pelo General Sílvio. Estava aberto um longo período de censura.

 

      Dr. Júlio passou a manhã do dia 13 tentando obter informações de amigos seus, militares, com posição de relevo no Rio. As respostas não o satisfizeram. À tarde, na redação, decidiu-se que o melhor seria falar com Sodré, governador, pois o jornal corria o risco, na falta de informações, de ter apreendida outra edição ─ qualquer uma! Os censores, gente que fazia a censura de diversões públicas (teatro de revista, inclusive) instalaram-se na redação na noite de 13. Eram quatro ou cinco, substituídos dias depois por um só, da Polícia Federal, que ficou alguns dias e foi-se ─ não sem antes esclarecer que a censura seria feita por telefone (“isto pode”, “isso não pode”) e que o secretário da redação seria chamado a prestar conta na PF se a ordem não fosse obedecida. Assim disse e assim se fez…

 

      Às vezes, sem aviso prévio, os censores vinham à Redação, querendo ver esta ou aquela matéria. A censura nas oficinas culminou um processo em que, segundo o chefe da PF, o secretário de redação foi o elemento principal. Publicamos pequena notícia sobre a possível e eventual candidatura do General Ernesto Geisel à Presidência da República. O chefe da PF convocou a seu gabinete o secretário de redação e transmitiu-lhe um “apelo”: não mais publicar notícias sobre sucessão presidencial. Conhecido o apelo, o secretário disse ao chefe da PF que o transmitiria a Dr. Julio Neto. A versão que o Ministro da Justiça transmitiu, justificando a presença de censores na tipografia, difere desta.

 

      Versão Buzaid ─ Conhecido o apelo, o prof. Oliveiros respondeu, dizendo que a apelos não atendia e que ordens não cumpria. O envio do censor, tendo em vista essa resposta, fez-se imperativo.

 

      Aqueles quatro ou cinco agentes vieram todas as noites até a de 3 de janeiro de 1975. Nessa, o chefe da censura telefonou para dizer que não viriam. Assim terminou a censura ao “Estadão”.

 

       Há dois episódios ligados à censura que merecem ser narrados para registro histórico. Referem-se às duas apreensões sofridas pelo jornal. A cena da primeira mereceria ser filmada.

 

      Estamos em 1969, no salão nobre (5º andar) do prédio da rua Major Quedinho que raramente é usado. Convencionou-se que a ele têm acesso poucos visitantes, uma deferência de Dr. Júlio de Mesquita Filho ao seu status e um reconhecimento de que se trata de assunto relevante. Nessa cena, há duas poltronas ocupadas: uma, por Dr. Júlio; a outra, pelo chefe da Polícia Federal em São Paulo, à paisana, o General R/1 Sílvio Corrêa de Andrade que, meses antes, pessoalmente, determinara a apreensão da edição de 13 de dezembro de 1968 e naquele momento respondia pela censura ao jornal. Viera ele comunicar que a apreensão fora decisão pessoal, exclusivamente sua, depois de ler, praticamente na rotativa, o editorial “Instituições em frangalhos”.

 

      Luz, câmera, ação: Dr. Júlio põe-se de pé, sinal evidente de que a entrevista terminara. Formalmente, como era seu estilo nessas circunstâncias, dirige-se ao General: “Agradeço sua visita e o que me comunicou. Veja, porém, que o ato [a apreensão do jornal] era tão grave que só poderia ser praticado com autorização superior”.

 

      O General não viera esclarecer as coisas com Dr. Júlio por inspiração de seu anjo da guarda. Fora-lhe recomendado que assim procedesse, já que sua decisão estava sendo interpretada como de responsabilidade do Comando Militar da área e do Governo federal, especificamente do Presidente Costa e Silva. O oficial de informações que insistira com o General Silvio Correa de Andrade para que esclarecesse as coisas com Dr. Júlio agira preocupado com restabelecer as relações do jornal com a Presidência revolucionária. Não lhe poderia ter ocorrido que o General–chefe da Polícia Federal de um governo revolucionário se defrontaria com alguém que se considerava, por múltiplas razões, mas sobretudo por mérito próprio, mais importante que o Chefe da Polícia de um governo que auxiliara a compor desde o momento em que o General Mourão Filho saíra de Juiz de Fora e que sempre defendera contra os ataques diretos ou não das forças políticas que considerava de “esquerda” e, como tal, inimigas de seu projeto pessoal de Nação.   

 

      As palavras de Dr. Júlio ao General Silvio Correa de Andrade indicam claramente que a apreensão da edição o dia 13 de dezembro foi recebida como ato de lesa-majestade. É essa impressão que a cena no salão nobre do jornal transmite: estão dois poderes ali representados, e ao General à paisana só restou apertar a mão em despedida, reconhecendo implicitamente que Dr. Júlio tinha razão ao dizer que só alguém muito bem situado na escala de Poder ousaria ofender o jornal Estado de S.Paulo.

 

      O bom relato obriga que se conte que não houve apenas uma apreensão. A cena, porém, não tem a grandeza da primeira: presente não mais um General, mas um Coronel. Um General está no outro lado da linha telefônica, mas não é da Reserva. É o Comandante da II Região Militar e pouco depois será Ministro. O Coronel é chefe de seu Estado Maior. Acompanha-o o censor. O Coronel quer ler o editorial, outra vez denominado “Instituições em frangalhos”. Que alguém, um “senhor X”, comunicara ao censor que ofendia o Presidente da República, o General Geisel. Lê-o em prova de página e comunica ao General seu comandante que não deve ser impresso. O General dá a ordem: “apreenda!”, que me é comunicada, iniciando um diálogo de surdos: “O jornal não pode rodar”. “Tenho ordem de rodar”. “Tenho ordem para que não rode”. “Então, o Sr. fale com Dr. Júlio Neto, que só estará em casa daqui a meia hora” (tudo conforme antes bem combinado entre Júlio e mim). “Espero”. Ele espera, transmite a determinação do General comandante e me entrega o telefone. Julio autoriza que a máquina rode exemplares com o editorial condenado para configurar o ato de força da apreensão e determina que, em seguida, que o jornal rode toda a edição com outro editorial. Há confusão na transmissão das instruções; rodam-se cerca de 25 mil exemplares com o editorial censurado, muitos dos quais são apreendidos. Alguns exemplares saíram normalmente e chegaram (pelo que se soube depois) a Ribeirão Preto e ao Comando do III Exército. Em Porto Alegre, o editorial censurado teve boa acolhida.

 

      O episódio serviu para provar que havia elementos do Governo infiltrados no jornal, com quase certeza na tipografia. O censor soube que havia um editorial, como soubera, meses antes, que havia um outro, sobre política do café, substituído sem alarde. A censura, daquela vez, foi mais delicada, por telefone: “Boa noite. O Sr. tem um editorial sobre a política do café? Não pode sair”. Dr. Júlio foi informado e estranhou: “Como souberam? Substitua pela Nota 100”, que era sobre problema urbano, menor. Assim foi.

 

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Oliveiros S. Ferreira, Professor da USP e da PUC-SP, foi jornalista do “Estado” entre 1953 e 1999. De 1967 a 1976 ocupou o cargo de Secretário de Redação, em seguida foi Redator-Chefe e, depois, Diretor)

     

 

 

 

 

 

 

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