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      Para lutar contra o sono – ao contrário das pessoas que contam carneirinhos ou lêem – tenho à mesa de cabeceira um livro de um francês mal-humorado, que se dedicou a desfazer das previsões desde Júlio Verne até Bill Gates: o mundo vai acabar o ano 2000, se andarmos de trem a mais de 60 quilômetros por hora correremos o risco de nos desintegrar e assim por diante.

 

    É de fato mal- humorado: até as concepções estratégicas que se fizeram de 1945 em diante a respeito de como se deveria agir numa guerra nuclear foram colocadas na conta das falsas profecias.

 

     A referência vem a respeito de outra previsão: o escritório informatizado. Aliás, observo que um dos bons negócios imobiliários em São Paulo, hoje, é construir “edifícios inteligentes” para escritórios. Ao escrever, vem-me à memória que certa vez o amigo de um amigo meu me fez longa preleção sobre as vantagens do computador e de como ele iria acabar de vez com as secretárias, ou pelo menos com os arquivos e a papelada.

 

     Lá se vão anos que ouvi essas coisas maravilhosas sobre a eliminação de papeis e, portanto, sobre a não necessidade de plantar e cortar eucaliptos ou pinheiros para fazer papel, ou então construir fábricas para reciclar papel velho. Depois, vieram outras previsões sobre o trabalho em casa. Ninguém pensava nos dramas que poderiam surgir no cotidiano: o marido ou a mulher trabalhando num computador e a mulher ou o marido limpando a casa e fazendo as refeições. O trabalho iria ser feito em casa – e com isso acabariam os escritórios, definitivamente. Haveria, talvez, um pequeno espaço para que um controlador recebesse o trabalho informatizado, e uma secretária (sempre elas) para colocar tudo o que fosse necessário num disquete e arquivar, depois de dar ao disquete uma injeção antivirótica.

 

     Certa vez, levei um susto quando ouvi de um jornalista porto-riquenho que ele trabalhava em casa, em San Juan, para um jornal de Miami. Escrevia, punha no ar, e seu trabalho ia direto para a pré-impressão em Miami. O editor da página lia o que ele tinha escrito no dia seguinte. O resultado foi que, além de economizar espaço, mesa, contínuo, água e luz e mais coisas com o porto-riquenho, o jornal de Miami perdeu o editor, que tinha a concepção muito antiga de que editor edita, e editando deve ler as matérias que serão impressas.

 

    Ele não lia coisa nenhuma do homem de San Juan; então se demitiu.

 

     Se a estratégia nuclear passou de moda – será? -, as previsões sobre ofim dos escritórios e o trabalho em casa estão aí, vivinhas da silva, embora ninguém pense na transformação das relações familiares que isso acarretará. As previsões estão vivas, mas ninguém quer valer-se não delas, mas da informática.

 

    É por isso que se constroem prédios inteligentes para escritórios – só que, imagino pelo que vejo para alugar na rua travessa da minha, com área de 48 metros quadrados! Na verdade, creio que se resiste à idéia do fim do escritório e da introdução do trabalho em casa – assalariado, bem entendido, com custo Brasil e tudo o mais – porque ainda não se perdeu a idéia de “mandar”. O editor de Miami que se demitiu porque não lia as matérias tinha sólidos motivos morais para assim fazer – mas não haveria, também, no fundo de sua consciência, a idéia de que havia perdido o controle sobre uma pessoa? No fundo, é o que o filósofo inglês Hobbes dizia: nós queremos mais e mais poder. Para dar-nos liberdade, falsa, há a Internet, que é a navegação livre e o livre pensar. Mas o pão nosso de cada dia não vem da Internet.

 

     No fundo, creio que muitas empresas ganhariam mais dinheiro se cuidassem de só ter trabalho em casa – assalariado, repito. Além de ganhar, alugando espaços, economizariam luz, água, etc. Muitos chefes se demitiriam por não poder controlar mais ninguém. E passariam a aprender outra profissão, em casa, cozinhando ou escrevendo na maquininha infernal.

 

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