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     A discussão sobre a globalização tem, entre outros, um aspecto positivo: obriga quantos ainda pensam em voltar a sonhar como na juventude a levar em conta as leis da economia mundial. Esse “levar em conta”, fique claro, não é uma frase inspirada pela chamada ideologia da globalização. Trotsky, na sua famosa definição do que fosse a “revolução permanente”, já deixava claro que a revolução permanente era o Partido Comunista no poder e o respeito às leis da economia mundial. Contra o isolamento e a favor da necessidade de estar associado aos centros propulsores do capitalismo (transformada a direção política do processo, bem entendido) fala a esperança, dele e de muitos outros, de que a revolução na Alemanha viesse em socorro industrial, econômico e financeiro dos comunistas russos.  

 

    Daí não se segue, como querem alguns, que essas leis tenham mudado de tal maneira de 1917 para cá que os Estados já não tenham mais o que fazer, e que as “leis” tenham passado a governar as nações e a infernizar a vida dos pobres. Elas continuam sendo ditadas por aquilo que se poderia chamar de sua regra de ouro: o Capital deve reproduzir-se, o que significa que se fazem investimentos para produzir mercadorias ou serviços que, vendidos no mercado interno ou internacional, dêem lucro. Isso significa que o investidor tem de estar atento a todas as condições humanas, de infra-estrutura, logísticas e políticas que afetarão seu investimento. Uma das razões do malogro das economias centralmente planificadas – as do antigo bloco soviético – é que essa lição não foi levada em consideração, em boa medida porque a burocracia tomou conta do processo e a “culpa política objetiva” dos agentes econômicos passou a mascarar os malogros dos planos. Porque o regime stalinista não levou em conta as leis da economia mundial é que a Rússia está, hoje, na dramática situação em que se encontra.  

 

    O debate sobre a globalização tem também seu lado mau, que é fazer muitos se esquecerem de que o Estado ainda tem importantes papéis a desempenhar. Quando falamos do G-7 ou G-8 como um agente da política internacional criado pela globalização, cometemos o erro de fazer do G uma letra mística, e aquele outro, pior ainda, de esquecer que os 8 lá estão porque são Estados que têm coisas a dizer na economia e na política mundiais. Se a Rússia não tem muito a dizer na economia – embora haja quem não gostasse de ver uma crise desestabilizar a segunda massa territorial do globo – ela tem muito a dizer na política mundial, quando mais não seja por sua posição geopolítica e pelas ogivas nucleares que o Estado russo controla. E é preciso ver, da mesma maneira, que o Estado norte-americano não desapareceu com a globalização, muito pelo contrário, e que o Congresso norte-americano está impedindo, dir-se-ia soberanamente, que os Estados Unidos aumentem sua cota no capital do FMI e que o Presidente Clinton assine acordos comerciais que evidenciariam a presença da “globalização”.  

 

    G por G, se tudo fosse econômico no mundo globalizado e tivessem desaparecido as relações políticas, de poder, o Brasil deveria estar sentado ao lado dos outros. Não está. Quando vier a fazê-lo, se chegar lá, sentar-se-á não como Brasil, representante da quinta ou sexta massa territorial do globo e da oitava economia mundial, mas do Mercosul – ou alguém tem dúvida de que é para isso que caminhamos, pois não há quem tenha a determinação de propor a criação da Confederação do Prata, que seria a base geográfica de afirmação de poder no mundo globalizado?  

 

    Os Estados não morreram. Os que têm bases reais de poder, esses ainda contam, interna e externamente. Se quiserem ser ouvidos, bem entendido.

 

  

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