Não custa reiterar a advertência papal: “Tanto os intelectuais como os jornalistas caem, frequentemente, em generalizações grosseiras…”

 

      Papa Francisco define desde o início de sua Exortação qual é a missão a cumprir: “Neste momento, não nos serve uma ‘simples administração’. Constituamo-nos em ‘estado permanente de missão’, em todas as regiões da terra’”.

 

      O objetivo principal é levar ao mundo a palavra de Cristo, mas com nova linguagem. Essa não é a de “… quem, no fundo… se sente superior aos outros…por ser irredutivelmente fiel a um certo estilo católico próprio do passado”. O objetivo secundário é fazer os ricos compreenderem que “a solidariedade deve ser vivida como a decisão de devolver ao pobre o que lhe corresponde”. Na missão de conquistar os dois objetivos, ele é claro: “ninguém pode exigir-nos que releguemos a religião para a intimidade secreta das pessoas, sem qualquer influência na vida social e nacional, sem nos preocupar com a saúde das instituições da sociedade civil, sem nos pronunciar sobre os acontecimentos que interessam aos cidadãos”.

 

      O “terreno” em que a missão de evangelizar deve cumprir-se é diferente de cultura para cultura: “Não podemos pretender que todos os povos dos vários continentes, ao exprimir a fé cristã, imitem as modalidades adotadas pelos povos europeus… É indiscutível que uma única cultura não esgota o mistério da redenção de Cristo”. É aos bispos que incumbirá a tarefa não só de valorizar o serviço dos leigos, mas também de transmitir a doutrina tendo em vista as particularidades culturais: “Penso, aliás, que não… convém que o Papa substitua os episcopados locais no discernimento de todas as problemáticas que sobressaem nos seus territórios. Neste sentido, sinto a necessidade de proceder a uma salutar ‘descentralização’”. Essa “descentralização” não significa que a Doutrina varie de cultura para cultura: “Se for bem entendida, a diversidade cultural não ameaça a unidade da Igreja. É o Espírito Santo, enviado pelo Pai e o Filho, que… constrói a comunhão e a harmonia do povo de Deus”.

 

      Soldados para cumprir a missão não faltam: “Embora não suficiente, pode-se contar com um numeroso laicato, dotado de… grande fidelidade ao compromisso da caridade, da catequese, da celebração da fé. Mas a tomada de consciência desta responsabilidade laical… não se manifesta de igual modo em toda a parte; nalguns casos, porque [os leigos] não se formaram… noutros por não encontrar espaço… para poderem exprimir-se e agir por causa dum excessivo clericalismo que os mantém à margem das decisões”.     

 

      Os bispos são, vale a comparação, os “comandantes de campo” que têm sob seu comando e orientação “cada Igreja particular, porção da Igreja Católica…”: as paróquias. Para o Papa Francisco “A paróquia não é uma estrutura caduca… Isto supõe que… não se torne… um grupo de eleitos que olham para si mesmos… É comunidade de comunidades… As outras instituições eclesiais, comunidades de base e pequenas comunidades, movimentos e outras formas de associação são uma riqueza da Igreja que o Espírito suscita para evangelizar todos os ambientes e sectores… Mas é muito salutar que não percam o contato com esta realidade muito rica da paróquia local e que se integrem de bom grado na pastoral orgânica da Igreja particular. Esta integração evitará que fiquem só com uma parte do Evangelho e da Igreja, ou que se transformem em nômades sem raízes”. A Exortação fixa, pois, os limites de autonomia e reforça as hierarquias. 

 

      A Igreja militante de Francisco não se esquece dos intelectuais, necessários à renovação do pensamento: teólogos e Universidade. Os teólogos têm importante papel a desempenhar: “A Igreja, comprometida na evangelização, aprecia e encoraja o carisma dos teólogos e o seu esforço na investigação teológica… Faço apelo aos teólogos para que cumpram este serviço como parte da missão salvífica da Igreja. Mas, para isso, é necessário que tenham a peito a finalidade evangelizadora da Igreja e da própria teologia, e não se contentem com uma teologia de gabinete”. As Universidades não podem ficar alheias à missão que é de todos os católicos. Elas são “um âmbito privilegiado para pensar e desenvolver este compromisso de evangelização de modo interdisciplinar e inclusivo… constituem uma contribuição muito válida para a evangelização da cultura, mesmo em países e cidades onde uma situação adversa nos incentiva a usar a nossa criatividade para se encontrar os caminhos adequados”.

 

      Um intelectual presunçoso e prepotente não poderá deixar de notar que há um momento em que o registro do discurso da Exortação se altera. O Inimigo era, até aqui, o indivíduo membro de uma sociedade indiferente preocupada com o dinheiro. Para conquistá-lo, basta a evangelização; é como se fora uma guerra de usura, de aproximação frontal. Mas há inimigos encastelados nas instituições ─ e, contra eles, apenas a aproximação indireta poderá obter resultados, pois “a Igreja não tem soluções para todas as questões específicas”.

 

      Como aproximar-se do adversário e convencê-lo do verdadeiro Evangelho? Pelo diálogo: ”Neste momento, existem sobretudo três campos de diálogo onde a Igreja deve estar presente”: com os Estados, com a sociedade “e com os outros crentes que não fazem parte da Igreja Católica”. Ao Papa, tudo parece indicar, cabe conduzir o diálogo com “os outros crentes” e as Ciências; aos bispos, aquele com o Estado.

 

      É nesse diálogo que a exortação de Francisco ganha sentido político: a Igreja militante não relegará “a religião para a intimidade secreta das pessoas”, pretenderá exercer “influência na vida social e nacional”, preocupada que está “com a saúde das instituições da sociedade civil…”

 

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(publicado nesta data em “O Estado de S.Paulo”)

 

 

 

 

 

 

 

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