O adiamento da visita da Presidente Dilma Rousseff aos Estados Unidos mudou o mapa geopolítico das Américas. Esse é o fato importante. E, a esse ponto, voltaremos em outra oportunidade.

 

      A análise do episódio da espionagem da NSA permite-nos dizer que houve um momento em que o problema mudou de configuração, deixando de ser de Soberania violada para transformar-se em uma questão por assim dizer pessoal: L’État c’est moi.

 

      Recapitulemos: 1) a descoberta do feito ominoso; 2) a reação administrativa do Ministério das Comunicações; 3) a divulgação de que a espionagem violara a privacidade da Presidente Rousseff. Aqui, dá-se a alteração da qualidade no processo; 4) o Itamaraty exige esclarecimentos por escrito, e fontes do Planalto murmuram que Dilma poderá cancelar a visita aos EUA; 5) Dilma, em São Petersburgo, faz um ultimato: sua visita depende de condições políticas e cabe ao Presidente Obama criá-las; 6) o Chanceler brasileiro vai a Washington conferenciar com a Conselheira de Segurança Nacional sem que resposta por escrito tenha sido recebida; 7) segundo fontes autorizadas, Dilma reuniu-se com seu Conselho Político (do qual fazem parte João Santana e Franklin Martins, que não são Governo, muito menos são Estado) e a Imprensa noticia que a Presidente ainda depende de conversa com o Chanceler para informar-se do que foi tratado em Washington; 8) fontes do Planalto insistem em que a visita será cancelada; 9) Obama telefona a Dilma; 10) a visita é adiada sine die.

 

      Três fatos aparentemente sem relação com o caso podem ser a esses todos acrescentados: 1) Putin, em artigo no New York Times, irrita “falcões” e “pombas”; 2) em ato público, Lula diz que se faz necessário um novo fórum de governança mundial e que “é preciso dar o mesmo peso a presidentes e chefes de Estado como o dos Estados Unidos, Alemanha e Brasil, caso contrário ‘vamos ter problemas sérios no mundo’ ” (Valor, 12/09); 3. a Rússia sugere que o Brasil integre a força da ONU que deverá fiscalizar a entrega, pela Síria, de suas armas químicas.

 

      Conjecturemos.

 

      1) Não se sabe por que o Chanceler brasileiro – que não opina no Conselho Político – foi a Washington; o público é informado do andamento da crise (pois é de crise que se trata) pelas “fontes”, que se servem da Imprensa para informar a Embaixada dos EUA do estado de espírito da Presidente.

 

      2) Antes de uma batalha, qualquer General que se preze avaliará a doutrina militar e buscará compreender a idéia que seu adversário faz de como deve travar-se o combate. Ora, o que as “fontes” deixam vazar indica que nenhuma avaliação foi feita, que o sentimento antiamericano no Palácio do Planalto subiu à cabeça dos que decidem e não se considera mais a relação de forças, cujo entendimento deve ser uma das bases de qualquer Política Externa que não queira, como a de Foster Dulles na Guerra Fria, chegar à “beira do abismo”.  

 

      3) O Planalto considera o Brasil, hoje, tão importante na cena internacional quanto Estados Unidos e Alemanha. Essa hipótese terá a alicerçá-la uma certeza de que o poder dos Estados Unidos já não é o que um dia foi.

 

      4) Considerando os números do comércio com os Estados Unidos, o valor dos investimentos diretos e a exposição cambial do nosso País às flutuações do dólar, o antiamericanismo só pode estar apoiado em dois pilares: a certeza da fragilidade do poder dos EUA e a convicção de que a Rússia, queiram ou não os EUA, além do CS da ONU, é parte do novo “fórum da governança mundial”. Ora, se a Rússia pertence aos BRICS, o Brasil também!

 

      Se essas conjecturas têm algum fundamento e, se os fatos apontados de início traduzem a realidade, é importante retirar, de umas e de outros, as conclusões concernentes à Política Externa brasileira.

 

      A primeira é a de que o Itamaraty deixou de ter importância para a Presidência. A Política Externa faz-se, hoje, no Planalto com ou sem a assistência do Conselho Político ─ e ousaria dizer que a influência dos “conselheiros” é pequena diante da vontade da Presidente, que tem peculiar visão do mundo. O elemento fundamental dessa Política é que o Brasil, por seu território, sua posição, sua população e sua economia, é tão importante quanto aqueles países que até hoje decidiram os destinos do mundo. Um observador ousado diria que a Presidente Dilma Rousseff considera-se, hoje, um DUX.

 

      A nova Política Externa tem um Norte e assenta em dois pilares. O Norte foi traçado por Lula quando Presidente: unir a América Latina, começando pela do Sul, se não contra, ao menos afastada dos Estados Unidos. Dilma forneceu novos elementos para a equação: o BRICS. Ainda que seja ousadia geopolítica, é conveniente ver que o Brasil é, a um tempo, membro dos BRICS e do Mercosul, e que a África do Sul foi convidada a participar da nova organização (ainda que esteja em embrião) por sua posição geoestratégica e não por sua economia. Que ela é importante para a Rússia, evidenciou-se quando seu Presidente, que conferenciava com Putin, deixou Dilma esperando durante uma hora ─ e sem protestos…

 

      Um dos pilares é a doutrina (ou seria a intenção) bolivariana que presidiu o ingresso da Venezuela no Mercosul. Ela está solidamente ancorada nos Governos membros da organização, exceto, por enquanto, o Paraguai. O outro, é permitir a expansão do Capital brasileiro na América do Sul, usando o BNDES e, basicamente, as empreiteiras. 

 

      Essa Política Externa está sendo feita e continuará a se fazer porque não se cuida de Política Externa no debate pré-eleitoral. E dela não se cuida porque o Estado, infelizmente, está ausente do pensamento dos que pretendem fazer Política no Brasil. 

 

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(publicado nesta data em “O Estado de S.Paulo”)

 

 

 

 

 

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