Era uma mesa de jantar: professores universitários, intelectuais voltados para a arte de edição, homens públicos. Intelectuais, em suma – talvez não orgânicos, mas intelectuais com influência. Conversa sem direção. O assunto saiu assim como veio: “Como o Lula é inteligente”. Outro (desculpem o gênero) replicou: “Tem carisma. Aquele jeito dele falar”. Depois, silêncio. Ninguém contestou e entrou outro assunto – a maldade do General Geisel retratada no livro do Gaspari. Ao pensar no que dizem do ex-Presidente, ocorre-me o samba: “O Arnesto nos convidô prum samba, ele mora no Brás / Nóis fumo e não encontremos ninguém / Nóis vortemo cuma baita duma reiva /Da outra veiz nóis num vai mais / Nóis não semos tatu”.  

 

    Se não vamos mais ao Brás, fiquemos aqui mesmo, na mesa bem servida, pensando no carisma do Presidente Luis Inácio Lula da Silva, que todos gostam de chamar de operário, esquecidos de que há dez anos deixou a profissão para ser político. Nada contra os políticos profissionais: afinal, o camarada Stalin foi um deles, com grande carisma. Com ele, seguramente, o Presidente Lula da Silva aprendeu a dizer que os dissidentes, como a Senadora Heloísa Helena, não terão indulto – prerrogativa dos Chefes de Estado que, fazendo uso dela podem, só eles, perdoar os criminosos. Curiosamente, na mesa ninguém se preocupava com símbolos, embora se afastassem de Geisel porque falou coisas que não deveriam ser ditas, ou gravadas. Símbolos que Lula da Silva não respeita, mas que constroem a imagem da Presidência.

 

    Quais? Um deles, a Bandeira. Os demais são menores, mas compõem o chamado Protocolo, que grafo com maiúscula para distinguir daquele que o Itamaraty gosta de preservar. Protocolo com maiúscula é o conjunto de atos que distinguem determinadas condutas. Por exemplo, se eu chego atrasado a um almoço com amigos, eles me perdoam porque também poderão chegar atrasados um dia; se o Chefe de Estado chega atrasado, por motivos que não sejam de Estado, rompe o Protocolo.

 

    O Presidente Lula da Silva rompeu o protocolo várias vezes. Uma, quando deixou a Presidente da República da Finlândia esperando por cerca de uma hora para almoçar, enquanto ele discutia assuntos políticos com José Dirceu. Correu o risco da senhora estar de mau humor e ir embora. Não foi, porque foi educada a respeitar protocolos. Outra vez, foi quando era o convidado de honra de um jantar na casa do senador Sarney. Chegou quando todos já deveriam ter jantado – e se não tinham jantado até as 11 horas da noite é porque não queriam ofender aquele de quem dependem para muitas coisas. Vivi uma situação igual à desses convivas em 1973, quando estive na Cidade do México. O jantar estava marcado para as 9 da noite, mas a pessoa mais importante só chegou às 11. O Protocolo mandava esperar pelo mais importante. Enquanto não chegava, houvesse uísque, tequila e mandioca frita. Com o que, em Brasília, estamos em Ciudad de México. Valha-me Deus!

 

    Esses rompimentos de protocolo, como não vão provocar guerra contra a Finlândia nem ruptura entre Sarney e o Planalto, passam desapercebidos. Mas o da Bandeira foi noticiado e até ligeiramente comentado. O Protocolo manda que, quando o Presidente está no Planalto ou no Alvorada, a Bandeira Brasileira esteja hasteada. Num sábado, o Presidente quis fazer uma reunião secreta na Granja do Torto. Para que ninguém soubesse dela, mandou hastear a Bandeira no Alvorada para enganar os trouxas. Não enganou – alguém deve ter falado para os jornalistas, que descobriram o mal-feito. Não pegou bem, mas apenas durante um dia. Não mais. No entanto, é um fato da maior gravidade, porque o símbolo deixou de ter relação com o simbolizado, que é a Presidência e a fé que se deve ter nele, portanto, nela e em quem a ocupa.

 

    O Presidente Lula da Silva não empresta importância aos símbolos. Na Internet, já não se empresta importância ao Presidente, e as piadas, algumas de mau gosto, começam a andar de um computador para outro. É um mau sinal para as instituições. Elas só sobrevivem porque os símbolos as mantêm vivas no coração de todos nós. Quando os símbolos e os protocolos perdem sentido, tudo é possível, pois se descrê das instituições. O Presidente, operário ou não, deveria ter isto presente.  

 

    É cedo demais para que a Presidência, esta tábua de salvação das instituições, esteja sendo desmoralizada. Pela falta de respeito aos símbolos. 

 

  

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