OS SONHOS

16-12-2007

 

 

     Os sonhos são apenas sonhos – era o título do artigo de um poeta que li no começo de 1950. Faltaria acrescentar que cada um sonha, quando acordado, aquilo que deseja sonhar. Os ingleses chamam esse tipo de pensamento de whishfull thinking – uma maneira toda pessoal de encarar a realidade.  

 

    Para mim, os que cantam a vitória da oposição e a derrota de Lula na votação da CPMF estão sonhando — houve inclusive quem dissesse que a Política voltava a existir !!! Talvez apenas Mailson da Nóbrega tenha sonhado menos que os outros, quando escreveu que nada mudou no Governo depois da votação — o superávit primário não será diminuído, o PAC (diz agora o Presidente) não sofrerá cortes e nada indica que a taxa de juros cairá ao nível desejado por muitos.  

 

    Quem ganhou, afinal, e quem perdeu? Vejamos isso sem sonhar.  

 

    1. No prontuário que reúne os dados objetivos do enfrentamento, o Governo perdeu — evidentemente. No prontuário…

 

    Mas a derrota o incapacita, por si mesma, a prosseguir em seu desempenho enquanto Governo? Ela o impede (ganhou a DRU) de transferir as verbas orçamentárias de uma rubrica para outra? A derrota o impede de apresentar no próximo ano, se o quiser, uma proposta para a criação de um imposto com características idênticas às da malsinada contribuição?

 

    A resposta a essas perguntas é, evidentemente, NÃO! Aliás, a própria oposição garantiu-lhe isso ao aprovar a DRU. Donde se segue que nada mudou, a não ser o humor da oposição. E os valores no Orçamento, em que não sabemos o que estava estipulado, mas que foi recolhido para revisões.

 

     2. No prontuário que reúne os dados objetivos, a oposição ganhou.  

 

    Mas ela conquistou as camadas da população que votaram em Lula no segundo turno? Não. Está arregimentada para vencer novas batalhas com um programa diferente do de Lula no terreno da política econômica, energética, internacional, das Forças Armadas, da Educação e da Saúde? Não.

 

    A resposta a todas essas perguntas é, evidentemente, um NÃO! Donde se segue que nada mudou, nem mesmo o humor de Lula, que continua agredindo a oposição da mesma forma como vinha fazendo. Inclusive com o expediente de enviar uma última proposta para “beneficiar os pobres” minutos antes de iniciar-se a votação em Plenário.

 

    Por oposição, entenda-se, aqui, o PSDB. Os Democratas, esses ganharam alguma coisa: consolidaram suas hostes, aumentaram um pouco a confiança que certos setores da população já neles depositavam. Puderam exibir nas revistas de fim de semana, sorridente, uma senhora senadora muito bonita que faz pendant com a Heloísa Helena, vestindo-se na moda ou a criando…, bem amada, rica. Nada mais, porém.  

 

     Se no médio e longo prazos, no frigir dos ovos, o Governo não perdeu e a oposição não ganhou, segue-se que a iniciativa estratégica ainda está com Lula. É para isso que os analistas não atentam, satisfeitos com ver que a CPMF não passou. E, com isso, nem sequer ganharam, de fato, os contribuintes.

 

    Para Lula pouco faz. Sem dúvida, a CPMF lhe era necessária (como foi para Fernando Henrique, quando Presidente), para garantir muitas despesas outras que não as da Saúde (daí a DRU). Mas tendo a iniciativa estratégica, ele poderá criar qualquer contribuição ou imposto com destinação específica para a Saúde — até voltar aos bons tempos em que cada papel que cheirasse a Saúde tinha um selo de 200 reis. Lula tem, além disso, uma grande vantagem tática: qualquer coisa que ande errada nesse ou em outro setor qualquer, ele poderá lançar a culpa na oposição, que recusou CPMF. Além do que, lembremos, pôs nas ruas o bordão de que a CPMF permitia rastrear os dinheiros dos ricos e dos lavadores e laranjas. A oposição deverá, portanto, defender-se, em vez de atacar…

 

    Quem de fato perdeu foi o PSDB: a rixa entre Fernando Henrique e Serra tornou-se patente e pública; a liderança de Arthur Virgílio poderá ser contestada na próxima eleição-escolha, no início da Sessão Legislativa. Afinal, os que iam votar a favor da CPMF, e ficaram constrangidos pela ameaça de renúncia, não perdoarão a sua atitude autoritária

 

  

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