Comunicação feita ao GACINT no dia 11 de junho de 2008  

 

  

     Qualquer que seja o candidato eleito em novembro, o próximo Presidente dos Estados Unidos encontrará problemas que deverá buscar resolver tendo em vista:  

 

      1 – o interesse nacional.  

 

     Não falo em termos de segurança e defesa do território. O que seja “território” e “segurança dele” tendo em vista o estágio atual dos armamentos é alguma coisa de impreciso. Se tivéssemos em mente o quadro geo-estratégico de 1938/9, veríamos que a primeira linha de defesa do território, tal qual estabelecida pelo Plano Arco-íris 5 se situava no paralelo 10, Sul, nordeste brasileiro. A primeira linha de defesa situa-se hoje no Pacífico, no Oriente Médio ou alhures, dependendo do planejamento do Pentágono – vale dizer, de quem é o inimigo principal. Há, porém, outras linhas definidoras da política externa, cujos contornos serão definidos em última instância pelo Presidente, que chegará a uma decisão depois de ouvir os membros do Conselho de Segurança Nacional e ter à mão as informações das diferentes agências civis e militares de inteligência.  

 

     É difícil que a nova política se afaste da linha tradicional de “segurança, comércio e projeção de ideais democráticos”. O próximo Presidente estabelecerá as prioridades dentro dessas três linhas tradicionais. Terá de haver-se, porém, com uma situação internacional, para não dizer mundial, em constante evolução, ameaçando interesses próprios ou de aliados, que exigem tomadas de posição. Todavia, em alguns desses casos, poderemos dizer que a posição norte-americana será mais reativa do que pró-ativa, já que não pode controlar a evolução de todos os acontecimentos.  

 

     As decisões sobre política externa sem dúvida levarão em conta:  

 

          a – a crise econômica interna e suas repercussões na política interna com ricochete na política externa;  

 

          b − como as decisões sobre a condução da economia e sobre como cuidar dos déficits fiscal e da balança comercial irão se refletir sobre o “estado de pronto” das Forças Armadas e influenciarão a percepção que aliados e adversários terão do poder dos Estados Unidos;

 

          c – não prioritariamente, mas também como a tomada de posição frente a determinados temas e problemas poderá ter influência no pleito de 2012.

 

 

     2 – o grau de autonomia absoluta e relativa que os Estados Unidos terão para adotar esta ou aquela política.  

 

     O real “estado de pronto” das Forças Armadas será elemento fundamental na formulação de uma política externa, tendo em vista a situação fiscal. Chamo atenção para editorial do “New York Times” de 18 de maio em que se falava da deterioração do poder militar norte-americano − apesar de tudo o maior do mundo − a ponto de “many military commanders say the country is unable to sustain the current operation in Iraq let alone face down future threats”. E se afirmava que os longos deslocamentos da tropa, como os que se verificam no Iraque e no Afeganistão, elevando o nível de stress, colocam em risco (sic) o sistema de voluntariado.  

 

     O editorial é importante na medida em que expõe os danos que as duas guerras − Afeganistão e Iraque − causaram não só às Forças Armadas regulares, digamos assim, mas também à Guarda Nacional, e não apenas do ponto de vista psicológico, mas também material: o Exército, tão-só ele, necessitaria de bilhões de dólares para se reequipar, sem considerar o que será necessário para permitir que a Guarda Nacional possa voltar à situação anterior à guerra do Iraque, pois 61% de seu equipamento estão no além mar. Segundo o jornal, lideres no Congresso estimam que sejam necessários 240 bilhões de dólares para repor o equipamento danificado pelas guerras.

 

     O mais grave do editorial é o último parágrafo, que se inicia com um prognóstico sombrio: “With two wars to manage and other crises on the horizon…” para afirmar logo, em seguida: “the next president, and the nation, cannot afford a prolonged policy review or to keep going blindly in the same direction”.  

 

     Por que digo que a posição norte-americana será mais re-ativa do que pró-ativa? Porque as crises que se delineiam no horizonte decorrem de ações de Governos sobre cujas políticas os Estados Unidos têm ou terão pequena influência: Irã, Rússia e China. Para não dizer Oriente Próximo e Oriente Médio (para retomar antigas divisões geográficas): Israel e países árabes, Paquistão. Para nada dizer sobre o terrorismo internacional, que pode atacar em qualquer lugar a qualquer hora.  

 

     Tenha-se presente que o programa nuclear do Irã muda o tabuleiro de xadrez na área e até mesmo no mundo: Israel já não é mais o problema Israel / Palestinos, mas passa a ser Israel / Irã − e deveríamos acrescentar Rússia, dado o interesse de Moscou na área. Ou mesmo China. Dificilmente se poderá acreditar que Washington, qualquer que seja o Presidente, possa ter alguma influência na eventual decisão de Israel de bombardear o Irã. O exemplo do bombardeio do Iraque nos anos 80 deve ser sempre lembrado. No que se refere ainda a Israel, Washington terá pouca influência nas negociações entre o Hamas e a Fatah que se realizam em Dacar − a primeira reunião terminou em clima de mútuo respeito. As negociações entre Jerusalém e Damasco (com mediação turca) devem ser vistas, também, à luz do que se passa no Líbano e da posição dos países árabes, a qual contribuiu para a solução (provisória?) da crise libanesa − com possíveis repercussões sobre a influência iraniana (xiita) na região.

 

     A Rússia é talvez a maior incógnita, pois estão em jogo dois elementos básicos da política de Bush, a ser seguida ou negada: a instalação dos foguetes antimísseis na Polônia e na Checoslováquia, e a expansão da OTAN. Essa última questão envolve os interesses de muitos, se não de toda a Europa Ocidental, em boa parte devido à relativa dependência do gás russo. A decisão sobre os dois assuntos, foguetes e OTAN, escapa em parte das mãos da Casa Branca na medida em que os interesses de segurança dos países europeus pesarão sempre na decisão que adotarem na OTAN. O peso relativo da Europa aumentou a partir do instante em que as forças anglo-americanas necessitaram de reforços no Afeganistão.  

 

     Escapará também ao controle norte-americano, aumentando a fricção internacional, qualquer outra ação que a Rússia venha a tomar para aumentar sua zona de influência na Europa (vide os acordos com a Itália) e na África (idem com Líbia). Até o momento, Moscou joga com o peso do binômio petróleo/gás ou, convém pensar, do átomo ¬− como o acordo feito com a China para fornecer urânio enriquecido para as usinas chinesas e construir uma usina de enriquecimento de urânio.

 

     Há uma frente sobre a qual se fala pouco, mas que é importante da perspectiva estratégica se, conforme se lê em alguns livros sobre o planejamento do Pentágono, a China substituiu a URSS como “inimigo número um” – frente provável no que Kennan chamaria de “planejamento militar em tempo de paz”. Quero referir-me à ação chinesa na África, sedimentando influências e conquistando fontes de matérias-primas essenciais ao desenvolvimento econômico da República Popular da China. Sobre essa ação, que em muitos casos inviabiliza pelo veto no Conselho de Segurança da ONU qualquer ação para redimir populações, como em Dafur, Washington terá pouca influência, embora nenhum planejador possa deixar de levar em conta a África − quando mais não seja, voltando ao pensamento de 1938 que inspirou o Arco-Íris, pela posição da África Subsaariana no mapa. Dessa perspectiva, poder-se-ia ter uma explicação para o renascimento da IV Frota no Atlântico Sul. Sem esquecer o interesse com que devem estar sendo acompanhadas as negociações (estejam em que estágio estiverem) entre Brasil, África do Sul e Índia, presumidos controladores do Cabo da Boa Esperança e da entrada para o Índico e o Atlântico Sul.

 

     O Brasil será visto com interesse, talvez com maior atenção do que o mero interesse pode indicar. Qualquer que seja a opinião que façamos sobre a política externa brasileira, o fato é que ela deve irritar os negociadores norte-americanos toda vez que se fala em comércio e concessões tarifárias e fiscais em determinadas áreas. Não apenas por isso. Creio podermos dizer que, a esta altura, o prestígio interno e mesmo continental do Presidente Chávez é uma vela que se extingue, lentamente, mas se extingue. Em boa medida, pela falta de apoio do Brasil e, convém não esquecer, pela firmeza de Uribe, que levou Chávez a aconselhar as FARC a depor as armas por ser a guerrilha, hoje, na América, uma coisa sem sentido. Queiramos ou não, Washington deverá ver com atenção o que o Brasil faz, ainda que mergulhado em crises pouco simpáticas como na Bolívia e no Paraguai. Faz, convém dizer, com alguma bravata, como na proposta criação do Conselho Sul-Americano de Defesa, no caso do ensaio para que a questão colombiana fosse discutida regionalmente, afastando, visto está, os Estados Unidos, e, especialmente isso, pela mudança do mercado fornecedor de armas modernas. No quadro internacional de hoje, para o Brasil não há uma URSS de que se possa dizer: “estou com ela e não abro a não ser que…”. Mas há o BRIC, o que seguramente faz um velho conservador político sulista norte-americano lembrar-se da cantilena: “Um elefante incomoda muita gente; dois, três … quatro elefantes incomodam muito mais”.  

 

     Mas esse é outro capítulo − o das perspectivas da política externa brasileira.

 

     Muito obrigado.

 

  

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