O grave risco que qualquer Governo brasileiro corre ao traçar sua política externa reside em ceder ao impulso de considerar q ue, por ser a 4ª massa territorial do globo e a 4ª ou 8ª economia do mundo, será fácil desconhecer os EUA ou com eles se indispor. Os perigos decorrentes da posição de hostilidade sem apoio na realidade saltam aos olhos, não de quem vê o mapa múndi em sua frieza, mas examina relações à luz do poder. Não é possível desprezar o fato de que a economia nacional se insere em um sistema mundial e de que, no Brasil, não há Capital bastante para que os mercados internacionais se ressintam dos efeitos de crises econômico-financeiras no País.

 

      Embora no BRICS, não somos uma China – nossa autonomia tem restrições que só poderão ser neutralizadas por um jogo diplomático de alta qualidade. O reconhecimento de nossas fragilidades e de até onde nossas próprias pernas alcançam deve vencer os argumentos de quem defende que uma política externa soberana e independente só poderá ser sustentada se em oposição aos EUA.

 

      Quando examinamos a nossa política externa, o decreto das 200 milhas, a recusa, até o Governo FHC, de assinar o TNP, o voto anti-sionista na ONU, o acordo nuclear com a Alemanha são exemplos suficientes de independência e soberania que não podem ser esquecidos. Não façamos dessas questões de Estado o ponto central de propaganda governamental. Isso, por um lado.

 

      Por outro, será preciso ordenar a política econômica interna a partir do reconhecimento de que o sistema mundial em que vivemos tem suas normas e convenções, muitas vezes não escritas, mas que não podem ser violadas ao sabor da vontade de qualquer um de seus membros. Especialmente dos que não têm condições de sobreviver em eventual isolamento, como autarquia.

 

      O esforço para se construir o que venho chamando de Brasil Grande – que já chamei de Pátria Grande antes que o termo fosse deturpado – esse esforço depende primordialmente da idéia que do Brasil internamente se faça, e depende estreitamente da idéia que se faça do Brasil no exterior.

 

      Durante um bom tempo, quando alguém pretendia resumir uma visão do País que seguramente é negativa, era costume citar a expressão “complexo de vira-lata”. No exterior, embora essa imagem possa estar no espírito, será difícil encontrar expressão que nos defina de forma semelhante ou ela não se enuncia por delicadeza. No entanto, supõe-se que um Estado que seja levado a sério não deixa suas embaixadas sem recursos, incomoda-se ao ver o constrangimento a que seus embaixadores estão sujeitos, não enuncia publicamente que seu Exército terá de esperar dezenas de anos, quando não centenas, para substituir seu armamento básico e não se dispõe a negociar com grupos terroristas internacionalmente reconhecidos como tal. Ainda que pretenda ser levado a sério pelo poder que julga ter em virtude da extensão de seu território, da quantidade de seus recursos e da qualidade, muitas vezes desprezada, de sua gente.

 

      Rousseau dizia que a desigualdade entre os indivíduos na sociedade mede-se pela posse de riqueza, prestígio e poder. Na ordem mundial, essa definição de desigualdade pode ser retomada para uma avaliação do poder dos Estados. Ora, o Brasil já não tem prestígio, sua riqueza é extremamente relativa dada a situação da economia, a propriedade de seus recursos é contestada e seu poder é nenhum. E quando um governo traça uma política que permite que o Estado possa ser objeto de críticas mordazes inspiradas em fatos reais tais como os mencionados não será exagero supor que também ele não seja levado a sério.

 

      Se a delicadeza diplomática exige que aquela expressão de Nelson Rodrigues não seja tomada como referência quando o assunto é, seriamente, o Brasil e os brasileiros, o exame isento das relações internacionais obriga a que se considere frágil a posição brasileira no âmbito mundial, apesar de que o território, a economia ainda que frágil e a dimensão da população permitam que o País possa ser considerado um bom chefe de fila, condutor de Estados que não têm os poderes físicos de que ele dispõe. Por isso, e não mais que por isso, o Brasil ainda merece alguma consideração.

 

      Transformar uma situação de praticamente não-poder é tarefa que, no Brasil, exige mudanças profundas na idéia que os brasileiros fazem de si mesmos. Só quando essas mudanças forem concluídas é que será possível ou até fácil convencer os demais de que temos condições de postular a posição de hegemon.

 

      Essas mudanças, porém, só poderão se dar se houver um grupo de indivíduos dispostos a definir objetivos distintos dos que hoje a política nacional aponta como necessários ou convenientes. E a dar-lhes forma, promover sua realização em ações coletivas tendo em vista alcançar posição que imponha respeito sem que haja necessidade de demonstrações de força. Porque, como é evidente e já foi dito, um Estado sem poder é um Estado submisso ao poder de outros.

 

      São muitos os que criticam a atual política e praticamente ninguém tem idéia do que deve ser feito ou tem coragem de enunciar. Tentemos ativar o debate. Ele deve começar por uma análise e sugestões voltadas a reconquistar a posição do País na América e, portanto, sobre as relações do Brasil com seus vizinhos e também com os EUA. Porque, a partir da fixação dessa posição como objetivo, este mesmo pautará o comportamento do Governo, da Sociedade e do Estado brasileiros. A perspectiva a ser mantida em decorrência dessa análise não poderá desprezar a História.

 

      Não se trata, como aconteceu no passado, de ter os EUA como iguais em poder e os hispano-americanos como atores de menor importância. E observar como os EUA se comportaram diante da América há de auxiliar a fixar-se essa nova perspectiva. Como se verá a seguir.

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 (publicado no dia 01 de fevereiro em “O Estado de S.Paulo”)

 

 

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