O texto abaixo foi enviado aos editores do sítio TERNUMA em virtude da divulgação, nele, de carta da lavra do Cel. Ref. Lício Maciel  

 

 

     Prezados senhores,

 

      Ao mesmo tempo em que agradeço a inserção de meu artigo “Por que o MST na ESG?“, devo confessar que fiquei meio aturdido com a insolência do texto do Cel. Ref. Licio Maciel, a ele acoplado, citando meu nome a pretexto de fazer críticas e ressalvas ao que penso.  

 

     Se abstrairmos a propaganda que o Coronel faz dos textos do Sr. Olavo de Carvalho, de tudo o que declara sobram apenas duas coisas: o ataque pessoal e a concordância final com minha crítica ao convite feito a Stédile. O que evidencia que a carta deve ter tido outro propósito que o de contestar as hipóteses que levanto no artigo em tela.

 

     A pesporrência do Coronel Licio Maciel teve, pelo menos, o mérito de me trazer 1965 de volta à memória e os muitos daqueles que me qualificavam de “teórico do fascismo” e que, depois, envolveram-se na luta armada contra os Governos militares.  

 

     Ao mesmo tempo, a prosápia balofa de S.Sa levou-me a acreditar que seguramente ele não leu “Os 45 cavaleiros húngaros“, em que o caráter nada liberal-democrático de Gramsci é apontado com toda a clareza. Tão claro ele está que toda a esquerda brasileira faz o possível para que o livro não seja conhecido na Universidade e fora dela — com o que o Coronel hoje parece pretender colaborar.

 

     É pena que neste semestre eu não esteja ministrando na USP o meu tradicional curso sobre hegemonia, e sim um outro. Caso contrário, ofereceria ao Coronel oportunidade de ouvir-me dizer aos alunos que Gramsci era bolchevista e como bolchevista não podia ser tido como democrata. E que sua teoria da hegemonia só é possível conceber-se num regime totalitário. Exatamente por isso a minha leitura de Gramsci — que, assim como outros tantos, deve ser lido na Academia — é heterodoxa.

 

     É pena também que o Coronel Licio Maciel tenha embarcado — e espero que apenas ele o tenha feito nas FFAA — nessa histeria anti-Gramsci que impede que se vejam com nitidez quais os reais problemas do Brasil e suas causas. Essa histeria apenas cria nos menos avisados e aumenta nos despreparados a desordem intelectual e a paralisia no campo da ação.

 

     Pela postura mental que percebo inspirar a carta do Coronel Licio Maciel, concluo que ele faz jus ao que eu dizia dos que, embora gastassem rios de palavras vazias para dizer que o perigo estava à vista, nada faziam contra a situação antes de Março em 1964 — “suicidam-se com medo de morrer”.

 

     Agradeceria se esta resposta pudesse merecer constar de seu sítio. De qualquer maneira, grato pela atenção a mim até aqui dispensada.

 

     Atenciosamente,

 

     Oliveiros S. Ferreira

     São Paulo, 01 de agosto de 2006.

 

  

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