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     Tornou-se lugar comum dizer: “saber é poder”. A frase aplica-se a tudo, desde as relações internacionais até a reforma do ensino. Nas relações internacionais, o “saber” é o acesso, melhor dizendo, a capacidade de transformar as descobertas da ciência pura em novas tecnologias. Os países que conseguem percorrer esse longo caminho – longo porque custa milhões e o trabalho de anos a fio de pessoas com alta capacidade adquirida em boas escolas – são conhecidos como tendo “poder” sobre os demais, pobres Estados e empresários, que têm de comprar os produtos fabricados com tecnologia avançada. No plano interno, fala-se do “saber é poder” quando se quer proferir uma frase de muito efeito e apontar a necessidade de uma reforma do ensino e das políticas de ciência e tecnologia que permita ao Brasil libertar-se da dependência das transnacionais e da sujeição ao poder dos países industrializados.  

 

    Admitindo como correta a percepção de que o conhecimento aplicado à técnica confere poder às nações, é o caso de examinar com atenção o problema interno para ver até que ponto o lugar comum virou tão comum que perdeu sentido como orientador de políticas públicas e – desculpem-me os que não têm a menor preocupação com a direção intelectual, cultural e política do nosso desenvolvimento econômico, social e político – não quer dizer coisa alguma. Perdão. Pode significar o contrário do que se pensa, isto é, que saber não é, necessariamente, poder.  

 

    O “saber” se aprende nas universidades, desde que se tenha feito um bom curso secundário e se conheça o idioma para ser capaz de pensar. O “poder”, porém, se exerce a partir das posições que se ocupa no Governo – pois é nele que se elaboram políticas públicas -, nas fábricas ou naquilo que se chamaria o “comitê de propaganda” dos empresários, sindicalistas, intelectuais, o que seja, que pretendam exercer uma função hegemônica no Estado brasileiro. A pergunta que me faço é a seguinte: os que têm o “saber” exercem o “poder”, exceto nas fábricas e nos mercados financeiros?  

 

    Há tempos, falando de seres humanos que haviam sofrido as conseqüências da grande seca dos anos 70, escrevi que havíamos perdido uma boa parte de nosso estoque genético e que os subprotéicos que haviam sobrevivido viriam povoar os chãos-de-fábrica e que, sobre eles, nós, da elite que pôde comer e estudar, exerceríamos poder. Mas como eles eram, e são em maior número, elegeriam representantes e mandariam em nós.  

 

    Se lembro os subprotéicos é para que tenhamos consciência de que apesar de haver uma enorme desproporção entre os que têm e os que não têm – aqueles que nos anos 60 se chamavam de have e have not – os favorecidos pela fortuna não se deram conta de que o regime democrático poderá, mais dia menos dia, fazer que os representantes dos sub protéicos sejam maioria nas Câmaras Legislativas e possivelmente em muitos Executivos, se não no mais poderoso deles. Quando e se isso suceder, de nada adiantará o “saber” que se aprendeu nas universidades públicas ou privadas. Será o “não-saber” que terá o poder de fato. Por “não-saber” entendo apenas isto: os que não sabem, mas têm poder, conhecem o alfabeto, mas perderam noção da História, detestam a economia globalizada porque é a expressão acabada do capitalismo, e pouca importância atribuem aos símbolos coletivos. Se não conhecer História é grave; se afrontar a economia globalizada é desconhecer as lições dos bolchevistas mais lúcidos – e os havia, exilados por Stalin -, não atribuir importância aos símbolos é assinar a sentença de morte da nacionalidade. Indica que não se tem mais contato algum com a realidade e que se vive naquele mundo que Jean Jaurès definia como sendo próprio do “fanatismo abstrato do pensamento”.  

 

    É preciso discutir a questão, pois ela é decisiva para o futuro.

 

 

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