Para que se bem entenda a crise atual, definam-se, antes que tudo, os personagens. O deputado Roberto Jefferson é um deles. Sua atuação decorre, sem dúvida alguma, do fato de sentir-se traído por José Dirceu. Não se trata de uma “traição” entre namorados que logo podem se reconciliar ou, mesmo se afastando, ainda manter boas relações. O que houve na relação entre os dois foi felonia.  

 

     Quem se recorda das aulas de História no colégio sabe que, na Idade Média, o que prendia o vassalo ao suserano (fosse o primeiro nobre ou não) era um pacto pelo qual o que se submetia aceitava a condição de servir ao outro, isto é, de estar a seu serviço em caso de guerra, respeitá-lo e render-lhe homenagem. O outro, o que recebia as homenagens e o compromisso de ter ajuda em caso de guerra, comprometia-se a defender o primeiro em todos os casos em que este, justamente, necessitasse de ajuda. Quem rompesse esse pacto, de honra e sem papéis passados, era felão. O ato de romper o pacto chamava-se felonia.  

 

     O importante a assinalar é que, havendo felonia por parte do senhor, o vassalo estava desobrigado de quaisquer compromissos, podendo, inclusive, voltar-se contra aquele a quem jurara servir.

 

     O compromisso de auxílio financeiro para as eleições, passado entre os Presidentes do PTB e do PT e sancionado por José Dirceu, tinha todas as características do pacto feudal. Ao não cumprir o acordado, o PT, por seu Presidente e por José Dirceu, rompeu o compromisso, deixando Jefferson em péssima situação pessoal (diria mesmo de honra) perante aqueles a que tinha prometido ajuda. Apenas esse sentimento de que Dirceu e Genoíno são felões e de que o deixaram em péssima situação perante aqueles a quem tinha prometido auxílio financeiro, pode explicar a agressividade de Jefferson.

 

     Ele se coloca — pensando em termos medievais — contra o rei que traiu o pacto. A felonia era como que um pecado mortal que deveria ser pago em vida, na terra, e o pagamento era reclamado por aquele que foi vítima da falta de honra de quem o cometeu. Por isso, no caso presente, desvendem-se os arcana imperii e ponha-se o rei a nu, qualquer que seja a conseqüência para os demais vassalos.

 

     Outro ator é a revista Veja que, ao publicar trechos da fita gravada nos Correios, abriu a crise. Os depoimentos que se seguiram à abertura da CPMI (o M vai por “mista”, Senado e Câmara) permitem deduzir que a gravação era recente. Jefferson insiste em que a ABIN fez a gravação a mando de José Dirceu e a encaminhou à revista com o objetivo de destruí-lo. Curiosamente, quando lhe perguntaram o motivo que teria levado Dirceu a assim proceder, não soube dar resposta que pudesse ser aceita sem mais. E, realmente, não se entende por que Dirceu, conhecendo Jefferson, teria mandado gravar a conversa e encaminhado a fita à revista. Ter mandado gravar até que soa lógico: com a fita, teria uma arma contra o Presidente do PTB, que impedia seus liderados de aceitarem o “mensalão”. Enviar a fita à revista para destruí-lo, com o mesmo objetivo, soa um pouco exagerado.  

 

     Note-se que Jefferson abriu a crise ao citar fatos, cuja coleta deve ter sido demorada. Donde se pode perguntar: ao se sentir traído por Dirceu, Jefferson já teria acumulado evidências como as que expôs, ou as reuniu um tanto apressadamente para responder à revista?  

 

     Sabe-se que houve uma pessoa com nome e endereço conhecidos, que mandou gravar a fita para resguardar interesses. Existe ligação entre ela e o ex-Chefe da Casa Civil? Não se inquiriu isto ou não se deu importância ao fato, se é que ligação existe. Por outro lado, as razões de quem gravou a fita soam ridículas: “para servir ao Brasil”. E que, como prêmio, obteve um gravador. Além de haver contradição flagrante entre o que quem gravou disse e aquilo que o mandante da gravação relatou a propósito de entregá-la ou não à imprensa. O que permite se não concluir, pelo menos formular a hipótese de que alguém, não se sabe quem, conhecendo Jefferson e imaginando sua reação, tinha interesse em abrir a crise.  

 

     Há um outro personagem, este misterioso: Fortuna, ora apresentado como Comandante (oficial da reserva da Marinha), ora como apenas militar da reserva. A meu ver, é sobre ele que devem recair atenções, porque seu comportamento pode ser interpretado de duas maneiras: uma, a que está no pensamento de todos nós, que ele seria um vulgar lobista agindo em Belém e, depois, em Brasília, e um possível chantagista (no gabinete de Jefferson). Há outra maneira de interpretar sua conduta. Suponhamos que, em Belém ou depois em Brasília, Jefferson tivesse cedido à tentação e se dispusesse a ser intermediário no negócio de informática com os Correios. Teria sido reprovado no teste de honestidade e Fortuna – esta é a hipótese – simplesmente daria a missão por cumprida e desaparecia em seguida. E a chantagem não teria sido insinuada. Mas Jefferson recusou uma vez (em Belém) e outra vez (em Brasília). Assim, foi aprovado no teste. E a chantagem para alertá-lo sobre a fita foi feita em seguida. Era como se Fortuna lhe tivesse dito: “cuide-se, que aí vem chumbo”. E Jefferson se cuidou.  

 

     A questão, pois, é saber quem é este cavalheiro chamado Fortuna e a quem serve. Porque ele apareceu assim de repente, numa cerimônia dedicada ao turismo em Belém, e insistiu em testar a resistência de Jefferson. Com que intenções? Levado por que motivos? A mando de quem? Ele deixou claro que Jefferson seria atacado pela revista Veja, dando-lhe tempo de preparar uma resposta. Ele sabia da existência da fita. Mais ainda: Jefferson e outros receberam em casa, por mensageiro incógnito, cópia integral dessa fita, permitindo ver que havia outras coisas no ar além do que foi publicado. Qual o interesse e de quem em fazer chegar a cópia da fita à revista e a deputados escolhidos a dedo? O mais interessante é que ninguém, na CPMI lembrou-se de perguntar a Fortuna como chegou ele ao conhecimento da fita. Ele vem sendo relacionado à chantagem, mas não à gravação. Uma falha no interrogatório que impediu que se avançasse em outro terreno, o de “a quem interessa”.

 

     Há muitos e muitos anos, um cavalheiro que não gostava de João Goulart e muito menos dos comunistas, dizia muito convicto: “quando não há uma revolução, inventa-se uma”. Criou, ele próprio, uma Ordem para condecorar os que o ajudavam a fazer a sua revolução: a Ordem do Jaguar. Vinte e um anos depois dos acontecimentos de 1964, encontrei quem, estrelas no ombro, se orgulhasse em ter a venera da Ordem em sua pasta de serviço.  

 

     Aceitando a segunda hipótese para o comportamento de Fortuna, seria possível supor que a venera ainda inspira ações de quem não perdoa a presença de ex-guerrilheiros no Governo e, para mostrar a necessidade de fazer a sua revolução, escolheu Jefferson. Se assim for, escolheu bem – daqui para frente, tendo a locomotiva começado a descer o plano inclinado, não se sabe por onde passará e nem onde parará. Nem quem poderá acionar seus freios.

 

     O que exige, desta vez, muito discernimento para a análise e a condução do processo.

 

 

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