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     Os temas que dominam os debates são, quase todos, econômicos: privatização, neoliberalismo, a crise da Previdência, o déficit público, Alca, taxa de juros. São importantes, mas cansativamente econômicos. De quando em quando, fala-se na reforma do Estado, que a rigor cai num desses temas alinhados atrás: quer-se a reforma do Estado porque ele não tem mais como desempenhar as funções que vinha exercendo desde alguns anos. A discussão sobre a reforma do Estado não toca, porém, a sua estrutura, o problema sobre o qual tanto se escreveu desde que se descobriu que a lei primeira da política, há muito tempo, é que há dirigentes e dirigidos.  

 

    Ninguém mais se preocupa com o Sistema. Com a maneira pela qual os diferentes setores sociais se articulam ao nível do Estado e alguns o dominam. É um fato curioso, este: todos falamos em crise do Estado,mas poucos se preocupam em saber qual a relação que ele, Estado, mantém com a sociedade.  

 

    Para que o leitor possa entender aquilo que as palavras podem mascarar, pense que o Estado pode ser, como dizia alguém, um “conjunto sui generis de funcionários, que supostamente tomam decisões em nome da sociedade, mas a rigor o fazem tendo em vista as representações coletivas do próprio grupo”.  

 

    Pode parecer complicado, mas é simples. E a simplicidade se resume numa pergunta que fiz em artigo que escrevi poucos meses antes da inauguração de Brasília: alguém perguntou a você, seu pai, seu irmão, se era preciso construir Brasília?  

 

    Limitando a discussão aos temas econômicos, não se discutem os temas que podem afetar a distribuição de poder na sociedade. Sempre sustentei que o Imposto Sindical era a pedra angular do Sistema. Apesar de serem as entidades patronais que defendem a necessidade de sua manutenção – acrescida pela famosa contribuição confederativa que a Constituição instituiu – houve quem julgasse que a tese era patronal. Ela é tão patronal que quando algum Ministro do Trabalho anuncia que vai abrir a discussão sobre a extinção do Imposto Sindical, faz-se um silêncio mortal sobre o assunto até o momento em que outro Ministro, que não tem contas a prestar a você, seu pai ou seu irmão, voltar a dizer que é preciso acabar com o Imposto Sindical e reformar a CLT. Usando uma expressão cara a Ortega, diria que política que se faz dessa maneira não é política, é chabacanería. Palavra que quer dizer algo mais que coisa não séria.  

 

    Como são poucos os que pensam os problemas brasileiros em termos de saber quem de fato manda e por que manda, são poucos os que se preocupam com a maneira de organizar o Estado.Para dizer que não falam de “poder”, falam do neoliberalismo – a favor ou contra. Enquanto se distraem e distraem o distinto público, não tocam nas questões fundamentais da organização da sociedade. Ser “politicamente correto” e só discutir os temas econômicos – mesmo sem se dedicar aos fundamentos da produção de mercadorias – é uma maneira cômoda de entrar na patota dos que, mesmo sendo oposição, discutem sempre os mesmos assuntos.  

 

    Não se diz que em Bizâncio, enquanto os muçulmanos sitiavam a cidade, discutia-se sobre o sexo dos anjos, havendo, pois, situação e oposição – pois se elas não existissem não haveria discussão?  

 

    O Sistema está vivo como sempre esteve desde que Vargas o consagrou com a CLT. É ele que nos domina. O preocupante é que, inebriados pela discussão dos temas econômicos, nos esquecemos de discutir as origens e os fundamentos da desigualdade entre os homens. O que significa que os poderosos continuarão governando como sempre – porque nós, intelectuais, deixamos de questioná-los. Passamos a fazer parte daqueles que, como dizia Julien Benda, eram “traidores”.

 

 

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