(quero dizer: cheia de curiosidade)

 

 

     A situação no Haiti, quer dizer a situação que se criou para o Governo Lula depois da morte do General que comandava as forças da ONU naquele país, essa situação pode dar origem a processo social e político de desdobramentos imprevistos. Esse processo, conforme seja o comportamento dos atores civis e militares (Ativa e Reserva) contribuirá para mudar as perspectivas de futuro até hoje alimentadas.  

 

     O laudo oficial — portanto, a versão oficial — é a de que o General cometeu suicídio. A curiosidade leva-me a confrontar essa versão com algumas notícias que apareceram na imprensa longo após o corpo ter sido encontrado e, talvez mais importantes dos que as publicadas, as que deveriam ter sido dadas a conhecer ao público e não o foram.  

 

     Abaixo, em itálico, de 1 a 5, busco reproduzir as notícias e informações sobre o alegado suicídio do General Urano Teixeira da Matta Bacellar; em tipo normal, apresento minhas dúvidas e considerações.  

 

     1. O General foi encontrado morto na varanda do hotel em que se hospedava, vestido de bermudas e camiseta.  

 

     N.B. Houve versões contraditórias: o General teria dado um tiro na boca; o suicídio teria sido cometido com um tiro na cabeça. Segundo a Agência Brasil, por informação de um assessor do Exército, teria sido um “acidente com arma de fogo”.  

 

     Não foi divulgada explicação alguma sobre os motivos que teriam levado o General a dar as costas para a rua (ou o jardim circundante), encostar-se na mureta da varanda e só então atirar contra seu corpo. As fotografias divulgadas mostram que o corpo deslizou da mureta para o chão.  

 

     É também curioso que não se tenha estranhado o fato de um General no comando de tropa multinacional ter escolhido aquele traje e aquele local para suicidar-se. Desde os filmes de Errol Flynn sobre o General Custer, sabe-se que os soldados (e com mais razão os Generais) morrem com as botas calçadas, isto é, em uniforme.  

 

     2. Informação do dia 12 do enviado especial do jornal O Estado de S. Paulo a Porto Príncipe, divulgada pela Radio Eldorado, deu conta de que a polícia (!?) do Haiti foi afastada das investigações. Não houve explicação oficial sobre o porquê dessa providência, aliás, compreensível se pensarmos que a ONU lá está porque a Polícia haitiana é péssima.  

 

     N.B. Estranha que imediatamente após a notícia da morte, os peritos da ONU tenham examinado o local do acontecido. Se, de fato, os peritos acorreram imediatamente, é de perguntar os motivos que levaram o Secretariado Geral da ONU a ter peritos legistas em permanência em Porto Príncipe. Se não estiveram imediatamente no local, mas horas depois (ou no dia seguinte), o local do acontecido ficou entregue aos cuidados de quem? Depois, que peritos eram esses que logo estabeleceram que o General brasileiro se havia suicidado?

 

     3. O Governo brasileiro, aturdido como não poderia deixar de estar, cuidou de enviar rapidamente peritos para a capital do Haiti. Lá chegados, evitaram fazer declarações formais sobre o ocorrido, mas transpirou que concordavam com a opinião dos peritos da ONU de que de fato tinha ocorrido suicídio.  

 

     N.B. Quando os brasileiros lá chegaram, o corpo não mais estava no lugar em que havia sido encontrado. O cadáver, seguramente, deveria ou estar sendo conservado em câmaras frias (será que este requinte existe em Porto Príncipe?) ou ter sido limpo e embalsamado com os recursos possíveis no local.  

 

     4. Curiosamente (evidentemente para quem tem curiosidade), com aproximação próxima de 90% entre uma versão e outra, difundiu-se, horas depois de conhecida a notícia da morte, uma versão que explicava os motivos pelos quais o General cometera suicídio: era um homem deprimido. Houve inclusive, segundo publicado, um seu colega de turma que relatava que o General era homem que pensava em suicídio. O informante dizia que, quando Tenente, o General já dava sinais de depressão, tanto assim que numa ocasião havia chegado a dizer que não sabia o que estava fazendo ali (não se sabe se na primeira unidade em que servira depois da formatura, ou se já na Brigada de Pára-quedistas). Na mesma notícia, mas em colocação subordinada, outro companheiro dizia que ele era um homem tranqüilo.  

 

     Em Porto Príncipe, era firme a informação de que o Comandante da Força da ONU estava deprimido. Mais ainda, com precisão no pormenor (e é esta precisão que peço ao leitor que guarde): o General andava tenso porque tinha de decidir se engajava a tropa na ocupação de Cité Soleil, o bairro mais perigoso de toda a capital.  

 

     N.B. É curiosa a coincidência das informações e mais curiosa ainda a rapidez com que o jornalista brasileiro encontrou dois companheiros de turma ou de serviço do General Bacellar que falavam coisas contraditórias. Como é curioso que no Haiti, ao mesmo tempo em que se dizia que o General estava deprimido, houvesse quem declarasse que um dia antes, ou dois, condecorara soldados dominicanos e com eles tirara fotos, além de haver estado, um dia antes de seu corpo ser encontrado, em coquetel em que conversara sobre amenidades, ele sempre tranqüilo, embora de fato preocupado com o problema tático que tinha pela frente: Cité Soleil.  

 

     Muito curiosa é a versão de que estava tenso em função da decisão que deveria tomar a respeito de Cité Soleil. Para mim, que sou civil e fui considerado incapaz para o serviço militar, um General de fato se preocupa quando tem de ordenar uma operação em terreno adversário e hostil. Preocupa-se não porque tenha de tomar a decisão, mas porque sabe que dele e apenas dele é a responsabilidade de decidir sobre a vida ou a morte de pelo menos 10% do efetivo que engajar numa operação. Alguém imaginaria, por acaso, que o General Bradley se suicidasse a bordo do navio de que comandava as operações na praia Omaha, no desembarque aliado na Normandia em 1944, porque sabia que os alemães estavam fazendo do terreno em que se dava a batalha um campo de caça aos patos? Ou que o General Bacellar não tivesse aprendido desde a AMAN, passando pela ESAO e pela ECEME, especialmente esta escola de Estado-Maior, que o Comandante deve decidir e apenas ele pode decidir?  

 

     E não terá ocorrido aos que sustentam a tese do suicídio por ter de tomar a decisão que o General Bacellar teria sido promovido a General burlando todo o serviço médico do Exercito e até mesmo a opinião dos que sobre eles tinham o dever de opinar sobre sua conduta e comportamento durante os anos em que cursos a Escola de Comando e Estado Maior? Ninguém sai da ECEME e chega a General sem ter tido notas que são “verticais”, aquelas que os professores dão pelo desempenho em classe e nos exercícios de campo, e “horizontais”, dadas levando em conta a apreciação dos colegas à direita, esquerda, à frente e atrás nos bancos escolares – que os há na ECEME, e muitos…  

 

     Curiosamente, ninguém disso se lembrou.  

 

     5. Em sua edição de 10 de janeiro, o jornal “Estado de S. Paulo” publicou entrevista de Wienner K. Fleurimond, editorialista do “Haiti Tribune” (jornal que circula em Miami, Nova York, Paris, Bruxelas e nas Antilhas) na qual ele afirma categoricamente: “Não acreditamos na hipótese de suicídio e estamos convencidos de que o General Urano Teixeira da Matta Bacellar pode ter sido executado por uma ação de um grupo armado a serviço da máfia e do narcotráfico haitianos, ambas organizações muito ativas atualmente no país”.  

 

     Fleurimond foi mais longe: “Tenho informações de que quinta-feira o General foi insultado por homens que controlam o poder econômico no país. Ele vinha sofrendo fortes pressões, como seu antecessor, o General Augusto Heleno, para utilizar suas tropas no bairro Cité Soleil, reprimindo os movimentos que lá se encontravam, mas reagiu contra isso. Não acredito que um General acostumado a esse tipo de pressão possa reagir suicidando-se”.  

 

     N.B. Em seminário aberto ao público e realizado pela ECEME no Rio de Janeiro em dezembro, o General Heleno não se referiu a esse tipo de pressão, mas deixou claro que indivíduos morando nas condições de habitação e higiene que vigoram em Cité Soleil não podiam ser considerados os “reis” do tráfico. Poderia ter insinuado, pois, que o tráfico (há rumores de que é controlado pelos cartéis colombianos) estava associado, quando não chefiado por pessoas de bom nível social e econômico.

 

     Juntemos A: o General Bacellar fora insultado seguramente porque repelira “pressões dos homens que controlam o poder econômico no país” para invadir Cité Soleil com o objetivo de reprimir os movimentos que lá tinham suas bases operacionais — com B: o General Bacellar estava tenso porque deveria decidir se enviava ou não suas forças a Cité Soleil — e com C: o General Heleno não acreditava que em Cité Soleil estivessem os “reis” do tráfico.

 

     Esses são os únicos fatos conhecidos sobre a situação antes do corpo do General Bacellar ser encontrado. Cada um dos leitores poderá tirar suas conclusões da equação que montei acima, A mais B mais C, em que Cité Soleil não é variável, mas constante, da mesma maneira que são constantes os “homens que controlam o poder econômico no país”.  

 

     Teoria conspirativa (pois a do suicídio é, evidentemente, também uma delas) por teoria conspirativa, prefiro sempre as minhas. Esta que enuncio tem duas saídas: o General recusou-se mais uma vez a invadir Cité Soleil (e sua preocupação no coquetel anterior ao dia fatal decorria do desse fato); ou havia decidido invadir o bairro, apesar de todos os riscos que ele próprio poderia estar correndo (e a preocupação no coquetel teria fácil explicação). Se um exilado partidário do ex-Presidente Aristide, deposto por norte-americanos e franceses — como é Fleurimond — acredita (e deve ter elementos para isso) que foram a máfia e o narcotráfico haitianos (ou o narcotráfico estaria ligado aos colombianos?) os responsável pelo aliciamento de grupos armados que mataram o General Bacellar, de três uma:  

 

     – ninguém sabia da decisão do General;  

 

     – o General Bacellar foi morto porque decidira invadir Cité Soleil (e a decisão se tornara conhecida) — e nas duas hipóteses seu assassinato foi um aviso para que a ONU não cuidasse do que não era sua missão,  

 

     ou

 

     – o General Bacellar foi morto porque decidira não invadir, e como os senhores do tráfico queriam liquidar seus concorrentes naquele bairro e o General não atendera a suas pressões, decidiram dar um exemplo a quem o sucedesse.  

 

     Teoria conspirativa por teoria conspirativa, essa minha é mais rica em pormenores e suspense…

  

     ***

 

      O General Bacellar foi enterrado com honras militares. Sobre o luto que pesará sobre sua família, ninguém pensou, pois há razões de Estado para que se divulgue, até que não restem dúvidas, a tese do suicídio.  

 

     Ou não as há? Se não as há, por que o Ministro da Defesa afirmou para todo o Brasil que o Brasil deveria continuar no Haiti apesar de tudo o que havia acontecido, porque não era possível recuar agora? E depois declarou que talvez fosse melhor terminar a missão em janeiro de 2007? E por que o General Comandante do Exército declarou que o Exército se recuperara do trauma e continuava voltado para seus misteres, embora no dia seguinte tivesse dito que não aceitava, pelo seu valor de face, a tese do suicídio, apesar do laudo do IML? Trauma decorrente do laudo dos legistas do IML de Brasília? Trauma porque se recuperou da humilhação de ver a ONU enviar psicólogos para acompanhar o estado de espírito da tropa em Porto Príncipe e faz questão de sabatinar na sua sede os dois Generais que vão substituir o General morto? Dúvidas porque soube de fatos que julgou melhor não revelar depois do enterro do General Bacellar?

 

     A rotina – ou a exigência – do Secretariado Geral da ONU, de sabatinar o General que vai comandar uma tropa de paz, pode ser explicada por motivos funcionais (!?), mas é curiosa – como tudo, aliás, neste affaire. De minhas leituras sobre o período, nunca soube que a ONU tivesse pedido ao Presidente Truman que indicasse o General Mac Arthur e um outro para que ela decidisse quem iria comandar a força de intervenção (naquele tempo não se chamava de paz) na Coréia em 1950. Se exigiu, ninguém soube. O Brasil, evidentemente, não são os Estados Unidos. Mas que é estranho, é, um governo que envia o maior contingente (até dia 10, porque depois a Jordânia dobrou a parada e hoje tem mais soldados que o número de brasileiros) ter de submeter ao órgão ao qual presta favor – porque é disto que se trata, desde que haja idéia do que seja soberania e grandeza, como diria o General De Gaulle – o nome de dois de seus Generais que escolheu. E permitir que uns burocratas, que talvez entendam de petróleo, digam se um deles poderá ou não comandar a tropa nacional que, por conveniência diplomática, vai sob a direção administrativa e financeira da ONU — que também escolhe o governo (evidentemente de outro país para que não haja insinuações) que cuidará de toda a logística da operação, especialmente o abastecimento de comida e coisas menores.  

 

     O General Bacellar foi sabatinado pelo Secretariado Geral da ONU, mas ninguém cuidou de informar o povo brasileiro, e, ao que saiba, o Comandante do Exército não foi a Nova York para acompanhar a entrevista. Agora que a ONU deverá escolher entre dois (não teve de escolher antes? Se não, por quê?) irá acompanhar a sabatina… Por quê? Com receio de que os psicólogos da ONU, que com certeza não examinaram os que intermediaram o óleo do Iraque que Sadam Hussein crismava e vendia, insinuem que os Generais brasileiros são deprimidos?  

  

     ***

 

      Se me perguntarem por que escrevi estas páginas soltas, responderia de imediato: porque não acredito e nunca acreditarei na tese do suicídio e minha curiosidade me levou a alinhavar tudo o que se leu acima. Acredito, sim, que ele foi assassinado a mando ou dos “homens que controlam o poder econômico no país”, ou da máfia e narcotráfico (se é que ambas as categorias sociais não se confundem num país em que o Estado já não existe).  

 

     Se voltarem a indagar os motivos que levaram o General chileno que assumiu o comando e os civis da ONU que estão em Porto Príncipe a afirmar quase que imediatamente que o General se suicidou, diria que razões de Estado complicaram todo esse affaire. O IML de Brasília ajudou a confirmar a tese do suicídio — e seria o caso de perguntar se tinha elementos, afora o corpo conservado do General Bacellar, para dizer isso. Vestígios de pólvora na mão de um suicida não teriam desaparecido após alguns dias? Não deveria ter muitos, tanto assim que o Comandante do Exército reluta em subscrever o laudo dos peritos…  

 

     Por que, pode-se perguntar, tanto mistério? Por que não dizer desde o início que o General foi assassinado? Pela razão muito simples de que admitir o homicídio seria confessar de público que o Secretariado Geral da ONU, juntamente com as grandes potências no Conselho de Segurança interessadas em retirar-se do Haiti sem parecer que renunciavam a seus deveres “humanitários”, havia enganado latino-americanos e outros, todos integrando aquilo que se poderia chamar os sipaios da globalização (nota abaixo) e da nova forma de imperialismo.  

 

     Enganado em que sentido? Enganado porque o que foi enviado a Porto Príncipe, assim pensaram os que mandaram seus soldados para lá, teria sido uma Força de Paz para assegurar a realização de eleições livres, separando grupos em conflito e garantindo um mínimo de tranqüilidade à população. Essa é típica conversa de vendedor de bonde para mineiro, como se dizia em São Paulo nos anos 1940 e 1950. Ninguém disse — e os Governos que enviaram seus soldados para o Haiti não se deram ao cuidado de fazer um detalhado exame de situação — qual era a real situação daquele infeliz país; ninguém cuidou de avisar os Generais que comandariam a força (que nem era para manter a paz nem era para impor a paz) que eles de fato estavam incumbidos de fazer operações de polícia desde que o Governo provisório de Porto Príncipe não reclamasse sua soberania e deixasse claro que a polícia (!?) de Porto Príncipe tinha seus privilégios operacionais e outros.  

      Está certo — dir-se-á. Mas razões de Estado no Brasil?  

 

     Sobejas razões. Porque estão em jogo toda uma política externa e o prestígio do Presidente da República, de seu Ministro das Relações Exteriores e de seu Assessor Especial para Relações Internacionais. Eles aceitaram a idéia de que estavam numa “missão humanitária” irrecusável, pois partiam do princípio de que se os soldados brasileiros ou a força da ONU não fossem enviados haveria um massacre. Eles tentaram nos convencer de que os brasileiros integrariam uma força para assegurar a paz, não impô-la.  

 

     Como poderão admitir que um General desse Exército colocado à margem de tudo o que lhe diz respeito foi assassinado, numa missão que o Presidente da República iniciou com um grande jogo de futebol?

 

     A guerra do Vietnã terminou com o descrédito do Governo norte-americano porque a TV transmitiu, a partir de certo momento, a visão de uma guerra que não era, isto é, uma guerra que não atendia aos verdadeiros interesses nacionais dos Estados Unidos. Essa versão, que até certo ponto explica a retirada norte-americana, é difundida na Academia, nos meios de comunicação e aceita em Brasília, inclusive pelos que no Congresso Nacional — não nos esqueçamos deles — deram autorização para que o Brasil enviasse tropas para fora do território nacional.  

 

     Hoje, o Governo brasileiro deve estar começando a sentir o que há de verdadeiro (contra ele!) no que se dizia então a respeito do Vietnã e dos Estados Unidos. As revistas semanais brasileiras (li apenas uma, até agora) começam a descrever o atoleiro (um inferno movediço como as areias) em que brasileiros se ferem, perdem seu equilíbrio emocional e vêem destruídas suas vidas familiares, quando voltam.

 

     Todo esse sacrifício está sendo feito porque o Governo brasileiro aceitou fazer de suas Forças Armadas, enviadas ao exterior, os sipaios da globalização.  

 

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Nota — O Dicionário da Língua Portuguesa da Academia de Ciências de Lisboa define como “sipaio” o soldado indiano que servia ao Governo imperial inglês durante o período em que a Índia era a jóia da Coroa britânica.

 

 

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